Oficina de Pintura Corporal e Simbologia resgata a cultura dos Guaranis

O Encontro da Amazônia vai trazer o índio Werá, também conhecido como Felipe Rodrigues Werner, da etnia Guarani, para ministrar a oficina de Pintura Corporal e Simbologia no Evento Cultura Indígena, que acontece no dia 18 de Abril, a partir das 14h. Formado em Desenho Gráfico, pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), o indígena traz todas suas referências para compor o workshop. “O objetivo da oficina é demonstrar o valor ritualístico da pintura corporal, para a cultura Guarani, tornando-se um agente social capaz de agir sobre o indivíduo, causando transformação ou conferindo um status social, poderes na batalha, fatura na colheita e na caça”.

A oficina será dividida em dois momentos. Na parte teórica, serão explicados os conceitos dos símbolos, das pinturas, dos pigmentos, do sentido de se pintar o corpo, da espiritualidade e dos aspectos sociais. A parte prática será voltada a execução das pinturas nos participantes, para que possam ter a experiência da transformação, através do conhecimento adquirido no primeiro momento do workshop, assim construindo o valor espiritual da arte dos símbolos.

Segundo o índio Werá, “o trabalho será voltado para a transmissão da informação acerca da pintura corporal e sua importância para o povo Guarani. Um resgate ao valor da pintura no corpo como parte de um comportamento ancestral na cultura humana, que se reflete em diversos segmentos desta cultura”.  E completa: “esperamos a ideia do respeito à pintura corporal e o entendimento sejam construídos na consciência dos participantes e que os mesmos venham a ver com olhos mais sensíveis a prática da pintura do povo Guarani”.

A pintura corporal e a simbologia são linguagens expressivas de um povo e refletem na construção da própria identidade cultural.  Para o índio, o evento é uma forma de ampliar a visão cultural da sociedade atual. “Ações assim são extremamente necessárias para o desenvolvimento de uma sociedade mais aberta a diversidade. O Encontro da Amazônia tem um papel importante na construção do conhecimento em relação as pessoas que ainda não tiveram um contato com culturas nativas brasileiras. O evento trará esta experiência dentro de um ambiente propício as pessoas urbanas, levando a riqueza e o conhecimento de diversas etnias, transformando através do conhecimento o preconceito em respeito, assim tornando-se importante, tanto a curto quanto a longo prazo”.

Além do Evento Cultural Indígena, o Encontro da Amazônia promove nos dias 16 e 17 de Abril uma programação educacional diferenciada, em comemoração ao dia do Índio. Através da mesa redonda e oficinas para escolas, o projeto visa abordar todas as culturas indígenas e principalmente a riqueza das maiores etnias do mundo, responsável pela construção da identidade de várias nações.

Confira um pouco do trabalho do índio Felipe:

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Influências culturais e artísticas da etnia Kaingang

Colares feitos com materiais heteróclitos.

Colares feitos com materiais heteróclitos. Fotografias: Acervo de Sérgio Baptista da Silva. Fonte: FREITAS, 2005

Hoje o blog traz o trabalho “Garra de jaguar, botão de camisa, cartucho de bala: um olhar sobre arte, poder, prestígio e xamanismo na cultura material kaingang”, da Ana Elisa de Castro Freitas sobre um estudo antropológico da presença da etnia Kaingang na cidade de Porto Alegre, veiculado na Revista Mediações. Formada em Biologia, Mestre em Ecologia e Doutora em Antropologia, a pesquisadora retrata os elementos materiais e simbólicos da influência deste povo indígena nesta região do país. Uma análise sobre no ponto de vista da etnologia, etnoecologia e etnohistória.

Este artigo focaliza um conjunto de objetos de grande significado para a compreensão da evolução cultural, presente e passado, da etnia Kaingang. O trabalho foi construído através das experiências e vivencias dos próprios indígenas. A partir disso, trazendo novas perspectiva ao estudo da arte e suas influências, quando relacionado ao contato interétnico e a etnohistória dos processos coloniais vivenciados no sul do Brasil.

Fabricados pelos Kaingang novecentistas, estes objetos lançam luz para uma mais sofisticada interpretação das manifestações estéticas que integram a cultura material kaingang nas cidades contemporâneas.

 

Confira o trabalho na íntegra: “Garra de jaguar, botão de camisa, cartucho de bala: um olhar sobre arte, poder, prestígio e xamanismo na cultura material kaingang”.

O som do silêncio de Daniel Munduruku

O índio e escritor premiado Daniel Munduruku representa uma das grandes vozes do cenário da literatura indígena no Brasil e no mundo. Carrega na bagagem mais de 45 livros publicados e um currículo invejável. Graduado em Filosofia, tem licenciatura em História e Psicologia. É doutor em Educação pela Universidade de São Paulo (USP) e pós-doutor em Literatura pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Através de cada palavra, leva todo seu conhecimento histórico-cultural da sociedade indígena e toda sua estrutura de sobrevivência.

 

Daniel Munduruku

Daniel Munduruku

Confira o pensamento do índio sobre os sentimentos que o silêncio desperta.

 

SOBRE O SILÊNCIO

O silêncio me traz duas sensações: tranquilidade e medo.

Sempre opto pela tranquilidade, pois o medo me paralisa e breca sonhos e perspectivas. A tranquilidade me impulsiona e me permite projetar. Sigo a máxima de Pessoa: “Tomo a infelicidade como felicidade, naturalmente como quem não estranha que haja planícies e montanhas e que haja rochedos e ervas”. Assim eu me permito cantar as desventuras que vão e vêm num turbilhão frenético de dores e odores; gostos e desgostos; luzes e sombras. Também por isso digo como Cecília Meireles: “Eu canto porque o instante existe e minha vida está completa. Não sou alegre, nem sou triste. Sou poeta”. Assim, sou movido pela tranquilidade que emana do coração da Terra que, mesmo dona do tempo, está sempre em movimento. Gosto do silêncio que me tranquiliza. Ele age sobre mim e me permite sonhar. Somente o sonho vence o medo, este medonho que embrutece a alma e corrói o corpo.

Prefiro o silêncio que me impulsiona para além de mim mesmo e me lembra que sou movimento no Movimento. E mesmo quando o medo me faz uma visita eu o tomo como necessário para despertar em mim a fragilidade a que estou condenado e a me lembrar que a argila com que fui composto é frágil e finita.

Não sou o Silêncio, mas faço parte dele. Prefiro a tranquilidade. O medo eu o passo para quem precisa dele.

 

DANIEL MUNDURUKU